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O “Pai Nosso” do Rock & Roll.

Assim que soube da realização de um show de Chuck Berry em minha cidade eu pirei. Soltei em alto (altíssimo, na verdade) e bom som um fálico palavrão. Na minha vã inocência, o pai do Rock estaria em condições físicas de apenas “rockin’ an old swing chair” (não sabe inglês? Aprenda!). Bom Deus, eu estava errado.

Entre descobrir se o preço do ingresso estaria dentro das minhas possibilidades e estar lá foram algumas semanas. Nesse período aproveitei para corrigir um erro crasso em minha personalidade: conhecer melhor a obra do “pai”. Recorri à internet e escutei atentamente suas músicas, identifiquei de cara as distantes raízes de 99% do que se faz hoje na música. Estruturas, sequências melódicas, rimas, temas… Não, os temas não. Afinal eram tempos diferentes, pueris, onde as menções à sexo eram apenas insinuações com trocadilhos e gírias. Hoje em dia pra se falar em sexo só faltam mostrar. Enfim…

Recorri também a filmes. Revi Pulp Fiction, Cadillac Records e vi no YouTube alguns trechos do especial “Hail! Hail! Rock And Roll!” gravado há décadas sobre Chuck Berry no qual davam as caras gente do quilate de Keith Richards e Eric Clapton. Eu estava razoavelmente preparado, mas nunca estaria à altura da genialidade do “pai”.

Desde muito jovem, em minhas primeiras audições musicais, um sentimento de busca pelas origens do que eu ouvia tomava conta de mim. Lembro de ouvir numa trilha sonora de novela, músicas do “vocalista do Queen” e outra do “vocalista do Rolling Stones”. A primeira questão que me vinha à mente era o porque daqueles artistas serem famosos, importantes ou relevantes? Depois, uma nova busca: ouvir Queen e Rolling Stones. Tendo ouvido as duas bandas, me viria novamente a curiosidade: “De onde veio a inspiração desses caras?”.

Com relação ao Queen, era um tanto mais complicado, pois ele misturavam ópera (com todo respeito, mas… Urgh!) com Rock (Yeah!). Já os Rolling Stones eram mais claros (óbvios, diriam os detratores): Blues e Rock & Roll dos pioneiros, especialmente um cara chamado Chuck Berry (o primo dele, Marvin, faz uma “ponta” em “De Volta Pro Futuro” – veja aqui!). Mas onde ouvir Chuck Berry? Devo lembrá-los de que antigamente para se conhecer um artista precisavámos ir às lojas de discos, perguntar se havia algo dele na loja e pedir para escutar (se a loja permitisse). Não ouvi, pois era novo demais para sair de casa sozinho. Em paralelo, Madonna estourava nas paradas, nos rádios e em TV’s de todo o mundo.

25 anos depois, estando totalmente à par da importância daquele sujeito, eu estava lá. A casa de show era muito grande. O espaço pouco adequado a uma celebração do Rock. Mais adequado aos endinheirados cidadãos exibirem em mesas suas garrafas de uísque importado. Sentei o mais perto possível. No telão, um desgraçado exibia um vídeo de pagode romântico (mortch, sangre, óódjio!). As luzes se apagam e em pouco mais de uma hora de show, me senti presenciando o sagrado.

Para um cara como eu, amante incondicional de boa música, que a tratava como uma religião, estar ali era como ver Jesus Cristo pregando. E maior e mais importante sermão dele era “Johnny Be Good”. Eu vi, ouvi, me arrepiei, me emocionei e chorei. Eu ouvi Chuck Berry tocar “Johnny Be Good”.

Os dois maiores shows de Rock que eu havia visto até então foram dos Rolling Stones e do U2. Mesmo com toda a paixão envolvida por esses artistas, que eu já conhecia bem e a bastante tempo, a emoção de ver Chuck Berry foi insuperável. Meu amor e devoção pela boa música, seja ela Rock, Blues, Jazz, Pop, Reggae, Eletrônica ou qualquer outro estilo, se tornaram ainda maiores do que eu imaginava ser possível desde então. E um novo objetivo musical se colocou em minha vida: ver uma apresentação de um ex-Beatle antes de morrer (eu ou ele).

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