Avatar Versus Sci-Fi
Eu vi Avatar. EM 3D, como manda o figurino. Claro que eu resisti ao hype enquanto pude, mas por todos os lados eu lia críticas positivas sobre o filme. Tudo bem. Fui com a digníssima. Na saída do cinema ela estampava um belo sorriso de satisfação e eu um daqueles amarelados, do tipo “Que bom que você gostou!”.
Dias depois ela me manda um texto sobre o filme, no intuito de me mostrar que ele mereceria uma avaliação melhor da minha parte. Respondo pouco depois e ela me sugere publicar no blog. Enquanto eu escrevia o texto pensei nessa possibilidade, mas como a sugestão dela foi espontânea, achei que era digno de estar aqui.
O texto que ela me mandou, publicado originalmente em http://abarrigadeumarquitecto.blogspot.com/2010/01/avatar.html
“Avatar é uma história de amor entre um homem e uma extraterrestre. Um romance de proporções galácticas.
Todos crescemos com estes filmes, obras que despertam a imaginação e oferecem um olhar sobre mundos alternativos e horizontes impossíveis. Os autores de ficção científica e fantástico são obcecados com a paisagem. O mundo físico por detrás da narrativa torna-se um elemento construtor da própria história. Nos tempos que correm os avanços da tecnologia de imagem digital tornaram tudo, virtual e literalmente, possível. E, no entanto, para a geração que cresceu a ver as bicicletas voadoras de E.T. e as aventuras arqueológicas do senhor Henry Walton Jr., mais conhecido como Indiana Jones, algo pode parecer perdido nesse processo. Um sentido de realidade desenhado a partir da representação física do espaço, capturado através de sugestão e metáfora visual. Algo inteiramente perdido em muitas produções contemporâneas, como na overdose digital da última peripécia de Indy em The Kingdom of the Crystal Skull.
Avatar é movido pela recriação de uma atmosfera física. Somos apresentados à esplêndida e hostil paisagem de Pandora, um paraíso extraterrestre revelado em toda a sua glória tridimensional. Para um filme tão sobrecarregado de tecnologia digital, James Cameron tem o mérito de nunca subestimar a dimensão material do seu território. Ainda assim, com todo o seu deslumbramento épico, os momentos mais conseguidos de Avatar residem na experiência íntima de Jake Sully: «Mais cedo ou mais tarde todos temos de acordar», diz Jake no momento em que começa a questionar onde reside a sua verdadeira natureza. As complexidades desta transição – a fronteira esbatida entre a experiência humana e extraterrestre – infelizmente, nunca se tornam num tema de consequências cinematográficas. O hiper-realismo de Pandora sobrepõe-se a uma mais desejável abstracção do olhar. A tecnologia toma o lugar central sobre uma mise-en-scène mais humana e subjectiva.
Apesar das suas limitações narrativas Avatar é um filme movido pela paixão pelo seu mundo e as suas personagens. Enquanto corre na tela é uma festa de cinema popular, o tipo de extravagância megalómana que vem uma vez por década. Os incondicionais da sci-fi não deixarão de reconhecer aquela que é uma das mais imaginativas experiências cinematográficas dos últimos tempos, a justificar alguma ingenuidade do olhar para assim embarcar nesta mágica viagem.”
Minha resposta:
“É baby, talvez me tenha faltado um olhar mais jovial ao analisar o filme.
Mas vamos analisar usando alguns dos bons filmes de sci-fi que eu já vi.
Todas as peripécias tecnológicas do Matrix (o primeiro) não foram meros exageros visuais, serviam à trama de maneira totalmente irrepreensível. Em Avatar eles criaram um novo mundo, impressionante mesmo, mas em Senhor dos Anéis (que nem é assim tão Sci-fi) eu vi imagens que me deixaram bastante impressionado também.
Com Star Wars não dá pra comparar. É como comparar Lost com Heroes. Vejamos: quantos personagens importantes à trama temos em cada um desses filmes? Em Star Wars tem Luke, Leia, Darth Vader, Obi Wan Kenobi, R2D2, C3PO, Han Solo, sem falar em mais dúzia só no primeiro filme. E no Avatar? Jake, Neytiri, Grace (lembra quem é essa personagem?) e quem mais?
Não deixo de indicar Avatar para ninguém. Achei-o deslumbrante, mas faltou uma história maior, menos simplória. Claro que o diretor nos passa mensagens ideológicas todo o tempo durante o filme (meio repetitivas e insistentes até), mas não basta. Quer um sci-fi instigante, questionador e repleto de mensagens ideológicas? 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Nesse filme a mensagem passada vai muito além do apelo ecológico de Avatar. O que somos, de onde viemos, para onde vamos? E o fio condutor dessas perguntas é a relação entre um astronauta (ou cosmonauta) com um computador que quer assumir o controle da nave.
Avatar não foi feito para adultos. É uma estória infantil com personagens adultos. Prova disso é que a violência mostrada no filme é altamente estilizada para não chocar a platéia. Caso contrário teríamos algumas das cenas repugnantes que vemos em filmes como Alien, por exemplo. Que nem mostra tanto assim. Imagina a sua irmã de três anos indo assistir Avatar. Ela poderia não entender muitos aspectos do filme mas certamente sairía saltitante do cinema. Se fosse ver Alien, ela sairia aos prantos com meia hora de filme.
Resumindo tudo: Avatar? Assista! Em 3D. É histórico. Só não espere ver o melhor filme de sci-fi da sua vida. Assista com olhos de criança. Mas depois alugue os DVD’s dos filmes que citei aqui e descubra que o gênero de Sci-fi pode ir bem mais além, com menos hype e mais conteúdo e relevância.”
Com isso espero ter encerrado o assunto Avatar na minha vida.



