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Watchmen & Watchmen


Em meio à febre dos seres azuis de Avatar (alguém falou em Smurfs?), ouso resenhar outra obra com um personagem azul. Só que um personagem muito mais rico, pleno de nuances e mistérios. O personagem é Dr. Manhattan e a obra é Watchmen.

A Graphic Novel

Lançada em meio à guerra fria, mostrou-se desde seu lançamento uma obra para poucos. Lembro de ver cada revista nas bancas. Lembro das reações de alguns amigos. “É muito estranha!”, “Uma série com heróis desconhecidos fica difícil de entender”, “A estória não é linear, tem várias estórias paralelas, que se juntam no final”. Ahn han…

Nem tanto, nem tão pouco. É sim uma estória complexa. Os personagens desconhecidos foram um desafio ao establishment da época, onde lançamentos só eram bem sucedidos se contassem estórias de personagens conhecidos. Os poucos autores que ousavam tais ousadias, eram vistos como excêntricos ou gênios incompreendidos. E as estórias paralelas (a saber: Os Contos do Cargueiro Negro, a entrevista com Hollis Mason e trechos de sua auto-biografia, as fichas do FBI de alguns personagens, trechos do diário de Rorschach e… etc.) são por um lado, momentos de aprofundamento nos personagens e na estória. Por outro lado, essas “faixas bônus” são o que muito se questionava com relação aos personagens da estória: seu passado, as estórias que nos levam ao momento principal. Indico inclusive que antes de ler a estória principal, sejam lidas todas as “faixas bônus”. Ajuda muito na compreensão do fio condutor da estória.

Em um 1985 alternativo, super-herois realmente existem. Quais as consequências disso? Tantas, boas e más, que em dúvida, os governantes resolvem banir os “vigilantes”. Alguns desapareceram, alguns tiraram suas máscaras, alguns continuaram a agir clandestinamente. Aquele mundo tinha muito mais a ver com a visão de George Orwell em 1984 do que qualquer outra coisa que li, vi ou vivi.

As cores não eram tons de cinza como facilmente se imaginaria, mas sim cheias de amarelos, vermelhos, azuis, verdes, marrons, todos em tons berrantes. Os autores dessa obra-prima não tinham tanta liberdade dentro da editora que os empregava. Eles tiveram que adaptar algumas situações para o gosto dos editores (que sempre acham que sabem o que o público leitor quer). O ermitão Alan Moore e o mago Dave Gibbons não apenas criaram uma estória com personagens cujos poderes e personalidades o público não sabiam quais eram, elas criaram um mundo imaginário, e pior de tudo, possível.

Ainda é uma estória de difícil compreensão. Sua leitura demanda um bom nível de concentração, pensamento e, por vezes, releituras. Nada disso impediu que Watchmen recebesse, ano após ano, mais e mais reconhecimento de leitores mundo afora. É a única publicação em quadrinhos listada entre as 100 principais obras literárias do século XX pela revista Time. Um enorme séquito de fãs ainda hoje, mais de 20 anos após sua publicação original, desenvolve teorias sobre cada página, cada palavra, cada rabisco da Graphic Novel. Ela está ali na minha estante, em versão encadernada, depois de eu ter me desfeito da coleção original. Em tempos de inquietude como os que vivemos atualmente, sua leitura é obrigatória e a frase “Quem vigia os vigilantes” também.

O Filme

Zack Snyder tem culhões. Pra começo de conversa ele peitou simplesmente o criador de Watchmen, Alan Moore, que não queria sua obra adaptada para a tela grande. Nos extras de seu filme anterior, 300, Frank Miller, autor de 300, de Cavaleiros das Trevas e de Sin City, pergunta a Zack como ele fará Watchmen e sua resposta é “Very carefully”. E assim foi feito.

O filme recompõe todo o visual da revista com mérito e honra. Não foi necessária toda a tecnologia que hoje espanta audiências em todo o mundo. Mas, por quê o filme foi considerado impossível de ser feito? A resposta é spoiler. Leia a revista e descubra. Mas a tecnologia para filmá-lo existe há uns bons 10 anos por aí. Os problemas maiores acabaram sendo as questões autorais e legais. Alan Moore abdicou totalmente de créditos autorais. Os estúdios de Hollywood brigaram até a véspera do lançamento pelos direitos da obra cinematográfica. Não eram brigas em vão. O que estava em jogo era simplesmente a melhor adaptação já feita de uma Graphic Novel.

Sin City e 300, do mesmo Zack Snyder abriram a série de boas adaptações de quadrinhos. Bem feitas, mas não tão à risca como foi Watchmen. Tudo o que importa está ali. No cinema, é claro, não dava para exibir tudo, mas é uma bela experiência ver em tela grande o mundo de Watchmen. Só que Watchmen não está em exibição atualmente, mas tem o DVD. E que DVD! O conto de piratas que entremeia toda a estória, a entrevista de Holis Mason e várias outras “faixas bônus” da revista foram recriadas para o DVD, fazendo surgir em detalhes absurdamente ricos cada nuance da HQ.

Trailer em HD de Watchmen, via YouTube.

A escolha do elenco foi inspirada na HQ, sem rostos muito conhecidos (aqui há uma polêmica, pois o estúdio dono da obra queria escalar estrelas de primeiro time). Os efeitos especiais foram submetidos a teorias físicas para que pudessem ser mostrados na tela da forma mais realista possível para uma estória de ficção. O roteiro foi trabalhado incansavelmente por uma equipe com a supervisão de um dos criadores da HQ, Dave Gibbons. Todos os cenários e geringonças foram recriados com meticulosidade. Está tudo lá.

Ouso dizer que o DVD poderá até, para os menos exigentes, substituir a leitura do original. Mas depois de ver o filme, quem não leu a revista, terá vontade de fazê-lo. Portanto, fica a minha sugestão. Leia primeiro a HQ e assim que terminar, assista ao filme para ter em mente cada detalhe da estória.

Conclusão

Watchmen é uma experiência única. Abre as fronteiras de nossa visão, nos põe em contato com estratégias e estratagemas, com realidades alternativas e com um mundo, que se não é possível, é facilmente identificado nas idéias apresentadas pela obra. São duas aulas. A primeira, sobre como fazer uma Graphic Novel. A segunda, como fazer uma adaptação cinematográfica de uma Graphic Novel. Não falte essas aulas.

  1. 25 de janeiro de 2010 às 19:04 | #1

    Ainda tô me devendo terminar de ler Watchmen. Embora seja uma falha de caráter assistir Watchmen antes de ler Watchmen, o pouco que li já deu pra perceber que a adaptação ficou fiel. Deviam fazer algo desse nível com Homem-Aranha e Quarteto Fantástico, cujas adaptações achei sofríveis (embora funcionem como filmes).

    Abraço!

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